08 novembro 2006

A PESCA NA GRONELANDIA 2

À tardinha, depois de muita procura, todos regressam ao lugre, uns quase vazios e outros com peixe à sarreta. A bordo é uma tristeza! Já passou um mês e ainda não se pescaram trezentos quintais. De noite, naquela longa noite, em que nada se ouvia a não ser os gemidos monótonos produzidos pela oscilação lenta do navio e o tic-tac do relógio de cobre, pendurado na antepara, por baixo do alboi, o Capitão não dormia. Primeiramente, sentado na loca da Câmara, que um candeeiro de suspensão iluminava, com a sua luz amarelada e vacilante, falara com o piloto e com o contramestre; mas agora no seu camarote, muito sozinho, não conciliava o sono. Pensava, pensava sempre. Aos louvados, já ele estava no convés, sem ter pregado olho. Reuniu então toda a companha: - Rapazes: aqui não fazemos nada. É uma desgraça para nós e para os patrões! Dizem que lá no Norte, na Gronelândia, há muita fartura de peixe. Quereis ir até lá? Os pescadores, receosos, entreolharam-se e nada disseram. Mas, passado aquele momento de indecisão, um dos mais velhos quebrou o silêncio: o senhor Capitão tem mulher e filhos, como nós. Leve-nos, portanto, para onde quiser, pois temos a certeza de que vamos para bem. Leve-nos para qualquer sítio, onde haja bacalhau, porque foi para o pescar que deixámos, lá longe e com tantas saudades, as nossa terras e as nossa famílias. Surgiu então no Diário de bordo, que tenho na minha frente, a seguinte passagem:«As dois dias do mês de Julho de 1931, estando o lugre «Santa Joana» ancorado no Virgin Rocks, a E do Main Ledg, como não houvesse peixe suficiente para o carregamento do navio, resolveu o Capitão suspender a amarra e seguir viagem para os bancos da Gronelândia.

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